domingo, 3 de abril de 2016

A Paixão de Évora-monte.


O Tratado de Londres, firmado pela Quádrupla-Aliança, em 22 de Abril, a chegada dos navios ingleses à nossa costa, o desembarque do Almirante Napier que da Figueira avançaria por Leiria, Ourem e Torres Novas, a perda da batalha da Asseiceira, a marcha da divisão espanhola do General Rodil, através da Beira e do Alto Alentejo, afirmavam o claro propósito de que a ofensiva da Primavera fosse a última do Exército Liberal, na conquista da vitória.

Tornava-se evidente que as forças de D. Miguel, ainda com resistência para prolongar o sacrifício da Guerra Civil ou para enobrecer um desespero em campo aberto, já não poderiam sustentar um trono condenado pela intervenção estrangeira, combalido pelas constantes deserções e traições e pela quase permanente incapacidade dos comandos superiores, em contraste com a perícia de dois chefes militares, como eram Saldanha e Terceira, um grande soldado e um perfeito General.

A Asseiceira, em alguns recontros indecisa, terminara na tarde de 16 de Maio. Na véspera, a infanta D. Isabel Maria seguira de Santarém para Elvas com alguns servidores e uma pequena escolta, para não ficar exposta às agruras de um possível cerco.
                       
Muitos propunham (e queriam...) que a rendição se desse ali mesmo, em Santarém. D. Miguel, julgando já insustentável a posição que tivera durante meses, logo no dia seguinte a abandonou a D. Pedro e a Saldanha (que então «passou do Cartaxo») e atravessou o Tejo em direcção a Évora, no intuito de concentrar forças para a acção decisiva que se aproximava.


Com más lembranças saía o Rei de Santarém: ali lhe ficavam cinco mil soldados, mortos de tifo pela invernia; durante a ocupação, haviam perecido alguns milhares de habitantes da vila, às vezes enterrados a cento e cento, de sol a sol; lá ficava no seu pobre caixão de folha, na igreja do Milagre, o cadáver da Infanta D. Maria da Assunção, morta em Janeiro, aos vinte e oito anos, no meio da geral desdita e que à falta de outras honras, após alguns anos do triunfo liberal, só pôde ser sepultada em campa rasa.

Às forças do Duque da Terceira, na Golegã, vinha entregar-se e entregar a cavalaria do seu comando - os "Dragões de Chaves" e vários corpos municiados - o Brigadeiro Joaquim Urbano, que àquela cilada de deshonra trouxera os soldados, iludidos e inflamados na esperança de que iam combater pelo seu Rei.


Tanta perfídia, mereceu nas Memórias do Marquês de Fronteira estas palavras de honrada punição de um adversário:

«O General traiu o seu Rei, na desgraça e traiu os seus subordinados, levando-os a cometer uma infâmia e, honra seja feita aos bravos dragões de Chaves, tenho a convicção, porque o presenciei de perto, de que, se uma voz se levantasse entre eles naquela ocasião, lembrando-lhes o seu Rei, preferiam morrer todos a abandonar a sua bandeira.»

Igualmente avulta, pela sua miséria moral, o procedimento que cobriu de vergonha o Coronel António Cardoso de Albuquerque. E outros, e tantos outros...

As tropas de D. Pedro, à última hora, viam subitamente aumentados com bons reforços os seus efectivos. Bem certo é que a história muitas vezes se repete... Chega a ser fastidiosa, pela insistência, a sua verdade justiceira. 

D. Miguel entra em Évora a 21. No dia imediato dirige uma proclamação ao País, a protestar contra a intervenção da Espanha, da Inglaterra e da França nos negócios da política interna de Portugal. A Nação ainda o ouvia, mas já não podia falar. A 23 reúne-se no paço do Arcebispo um conselho, no qual, examinada friamente a situação, se decide por maioria pedir o armistício. As possibilidades de resistência diminuíam de hora a hora. Ouviam-se muitas vozes provocadoras de desânimo. A confusão dominava já os melhores juízos.

No outro dia, a 24, o Rei passa a última revista às tropas nas cercanias de Évora. Era um adeus mudo e solene: 16.000 infantes, 14.000 cavaleiros, 35 peças de artilharia ali estavam ainda em parada, para a vida e para a morte. No Algarve, o General Cabreira, dizia-se, comandava 3.000 infantes, 200 cavaleiros, algumas bocas de fogo, fora as guerrilhas da Serra; havia mais gente para entrar no conto que operava e se batia para as bandas de Alcácer. Somadas as guarnições dispersas além do Tejo, as forças Miguelistas subiriam a 35.000 ou 40.000 homens.

Mas batiam-se contra os Marechais, tinham de lutar contra a Espanha, a França, a Inglaterra e, mais ainda, contra a misteriosa corda de traições e defecções que vinham do General Póvoas e da vitória vencida de Souto Redondo.

Terceira internara-se já no Alentejo, esse mesmo Terceira que, ainda então Conde de Vila Flor, fora no estado maior do Infante D. Miguel receber a Arroios o Conde de Amarante, que descia a Lisboa para colher os louros do pronunciamento de Trás-os-Montes contra o "Vintismo". Pelo Alentejo penetrava também Saldanha, a largas marchas, para envolver e reduzir os campos de operações daquele mesmo Príncipe que onze anos antes ele acompanhara a Vila Franca, e que no regresso da "Campanha da Poeira" pisara aos pés o laço Constitucional. É assim, mudável e vária a humana condição...

Aprazados os dois Marechais para Montemor, ali se reúnem com o General Miguelista Guedes de Oliveira e assentam que a Convenção (capitulação) seria assinada em Évora-Monte, passados três dias.
             
Fora também a 26 de Maio, em 1823, que o regimento de infantaria do Castelo de S. Jorge se erguera ao toque de deitar correias no pronunciamento da Vilafrancada, ordenada pelo Infante D. Miguel e pelo Brigadeiro José de Sousa Sampaio.

Na velha Praça Alentejana compareciam agora os dois Marechais, Saldanha e Terceira por D. Pedro e o General Azevedo Lemospor D. Miguel; o Brigadeiro D. Ramon, representante de D. Carlos V de Espanha; o secretário da legação inglesa, John Grant, que já estava no Quartel General de Saldanha, seria o portador das antigas condições de capitulação, ditadas pela Grã-Bretanha e malogradas por inaceitáveis, após a conferência do ministro Lord Howard com o General Lemos, em 22 de Março, na Ponte de Asseca.

Um mês depois daquela digníssima desinteligência, firmava-se em Londres, o já referido pacto da Quádrupla-Aliança.
                                             
                                                                                                          
Não perdia o seu tempo a Maçonaria...

Pela Convenção, o Rei D. Miguel I tinha de deixar Portugal, dentro de 15 dias; escolheria o porto português e a nacionalidade do navio em que desejasse embarcar; reconhecia-se-lhe o direito à pensão anual de 60 contos; os seus oficiais conservariam os postos alcançados; os civis regressariam em paz aos seus lares...

Parecia um programa de concórdia civil, logo completado com o decreto de amnistia.


Assinada a Convenção (capitulação) numa casota térrea da vila, foi servida uma ceia que a presença do General vencido impediu que fosse festiva.

Lemos nada quisera nem pedira para si. O filho do povo, sempre tão desdenhado por certos fidalgos sem nobreza, que só mantinham o privilégio de ultrajar os nomes de avós ilustres, declarava que seguiria o destino do seu Rei, para o desterro. Ao descer de Évora-Monte por entre oliveiras, dolorosamente simbólicas, esse General Azevedo Lemos, ladeado apenas dos seus ajudantes e do Marquês de Fronteira, que o acompanharia até aos postos avançados do Exército Miguelista, representou ali a lealdade e a vencida dignidade do povo português, nessa noite de silêncio e de luar tépido, em que a História abriu as páginas à glorificação das suas virtudes militares.
               



No dia seguinte, 27 de Maio, D. Miguel mandava ler e afixar a Convenção; dirigia o seu maior louvor às tropas, mostrando-lhes a impossibilidade de prosseguir numa luta sem esperança, desde que, contra a legitimidade do direito dinástico, contra a própria dignidade da Pátria, tropas e navios estrangeiros andavam combatendo em Portugal. O inimigo já não era uma facção de portugueses, constituía-o uma coligação de três poderosas nações da Europa.

De encontro aos quinais da Sé, do Paço do Arcebispo, do antigo palácio da Inquisição, ouviam-se ferros a tinir: eram as espadas que os oficiais partiam por desespero, para não as entregarem ao vencedor. Outros muitos arrancavam as barbas, em gritos de cólera e dor: «Traição! Traição!»
       


Em cumprimento das cláusulas da Convenção, o exército realista começava a desarmar e a destroçar.

Na noite de 27, em Lisboa, já decretada a amnistia, abria-se para a récita de gala o Teatro de S. Carlos. Por não ter mandado fuzilar o irmão e preferir dar um testemunho irrefragável de Clemência, e dos sentimentos de Amor e de Indulgência, D. Pedro sente, no Camarote Real, o primeiro ímpeto da justiça popular, nos insultos e doestos que não acalmam e ali desacatam ruidosamente a sua autoridade.

Acima dos dois príncipes irmãos, o vencedor e o vencido na luta pela soberania, erguia-se de mais baixo e para mais alto, a soberania do povo. O Imperador do Brasil ali conheceu que o preço da vitória da Liberdade foram os grossos patacões, talvez trinta fossem eles, vilmente arremessados à sua face mole e pálida de ético.
         

Ele pôde ainda dizer: «Fora, canalha!», mas essa canalha era agora o «poder mais alto que se alevantava»Ela ficou, ficaria, e quem saiu fora foi D. Pedro com a primeira hemoptise, com pedras e lama sobre a carruagem, para se finar dali a quatro meses, numa câmara de Queluz. Quem se ausentava do teatro e de Portugal era a Realeza verdadeira, sem alcunha que a desmentisse.

Em 28 e 29, D. Miguel preparava-se para o incerto desterro de que não mais voltaria.


Às vezes, surgindo às varandas do Paço do Arcebispo, seu quartel de uma semana, ainda O Aclamam com doloroso fervor os corações fiéis do povo; abraça a chorar os soldados, que vão regressar aos regimentos ou às terras distantes, muitos a perder a vida em assaltos de vindicta; despede-se dos oficiais, e por alguns mais necessitados distribui o pouco dinheiro que ainda tinha consigo. Despida a farda, aparece vestido com um casaco de saragoça, calças e colete de pano azul. Chama o seu particular José Luís Rocha, filho da Sua ama de leite Genoveva, e incumbe-o de uma honrada e honrosa missão: ir entregar a D. Pedro o cofre das jóias da Coroa. Para se indemnizarem dos valores de quinze contos, junta D. Miguel àquelas as próprias jóias do Seu uso e da Sua casa.

Quem perdera um trono «a que subira por dever», como Ele acentuaria, mais cuidado tinha de pôr em conservar a honra, único património que levava para o exílio.
                                                                                                                                                                        
Ao receber a mensagem do Rocha, à vista de tal escrúpulo, o Imperador do Brasil não pôde deixar de comentar, entre admirado e desdenhoso: «Isto são mesmo coisas do mano Miguel!» - Tinha razão para estranheza o acolhimento de D. Pedro: as jóias confundira-as em Évora a honradez do Proscrito, e não bastou um século de luzes para as destrinçar!

Na madrugada de 30 de Maio, D. Miguel descia as brandas escadas do Paço do Arcebispo e começava a subir o fragoso calvário da Sua alma. E por Ele iria caminhando ao peso da vida, através de ermos de miséria e de infortúnio, até que a morte O colheria em terra estrangeira. 

Ao passo das montadas, como vencido, deixava as Portas de Moura, transpunha a porta do Senhor da Pobreza, saindo das muralhas e entrando na campina, onde o esperavam dois esquadrões do Regimento de Lanceiros da Rainha, sob o comando do Tenente-Coronel Simão Infante de Lacerda.

Por última honra ao Vencido, que fora Rei de Portugal, escoltava-O um pelotão de vinte soldados da Cavalaria Realista. No comando dum dos esquadrões, ia o Capitão D. Carlos de Mascarenhas, antigo amigo e companheiro de D. Miguel.

Ao mesmo tempo, em Elvas, a Infanta D. Isabel Maria ia recebendo as Deputações dos Marechais de D. Pedro. Ali se conformava mais uma vez com os factos, preparando-se para regressar a Lisboa, a congratular-se com a restauração solene da Carta Constitucional.

Aos olhos turvos dos que iam, a claridade da manhã, inundava a charneca, acendia as vagas dos trigos loiros, no meio dos quais os montes avultavam como ilhas brancas na imensidade do horizonte, até à serra de Portel.

Por entre azinheiras, os pelicos, vestidos com a solenidade de dalmáticas, por S. Manços, na praça do Geraldo ou no portal da Sé, sob a bênção do Apostolado, ficavam quietos, com os rafeiros ao lado, a ver o desfile em silêncio funéreo... À tropeada da cavalaria, as cegonhas largavam das moitas em voos calmos, de aves semi-domésticas, com rumo ao amor dos ninhos, suspensos em amieiros solitários, todos aleijados das investidas do suão.

Em volta, o terreno ia-se alongando, prolongando em convulsões irregulares de estevas floridas que ampliavam em brandas colinas a festa da planície, jucunda e farta, como mesa de lavrador.

Dos altos, os moinhos de vento acenavam para as searas, prometendo-lhes a glória de as converter no pão da vida, enquanto no topo da serra se transfigura à tremulina, a velha ermida de S. Pedro.

Vem à escolta avisos sinistros: as Quadrilhas do Batalha e do Galamba andavam patrulhando pelo alfoz de Portel; num clube de Lisboa, talvez o mesmo em que se planeara a assuada a D. Pedro, em S. Carlos, resolvera-se a façanha de assassinar D. Miguel no longo caminho de Évora para Sines; e havia cúmplices nos próprios oficiais da escola, segredava-se. Os ministros da Inglaterra, da França e da Suécia, dirigiram-se ao governo para prevenir este plano carniceiro, que faria pagar com o sangue do Rei destronado, os excessos as violências, os crimes que não eram dele.

O ministro da guerra, Agostinho José Freire, entrava no dia 30 em Estremoz, e de lá tranquilizava o governo, ele que a voz pública denunciava como instigador do atentado e inspirador dos tumultos de Sines.

(Viria depois a ser morto ao passar na Pampulha pela mesma canalha que cortejou).

A quadrilha do Batalha compunha-se de muitas centenas de facínoras, recrutados entre a pior gente do Alentejo e do Algarve, em boa união com a rufiagem de Lisboa - todos bravos homens, que se mantiveram ausentes, enquanto se lutou em combate leal.

Simão Infante compreendeu que devia contar com o assalto do Batalha, quando soube que já haviam sido roubadas as bagagens de D. Miguel e as de sua aia D. Francisca Vadre, ficando ambos reduzidos às reservas da roupa que vestiam.

Ao pelotão de 40 soldados que se destacara em avançada, sob o comando do Capitão D. Carlos Mascarenhas, procurou resistir o Batalha com a sua gente, defrontando-se-lhe no caminho. D. Carlos fez-lhe saber que se dentro de cinco minutos não estivesse livre a passagem, carregaria à espada toda a quadrilha. Os Bandoleiros afastaram-se aos gritos de insulto a D. Miguel e à Tropa Liberal que nobremente O escoltava. Para muito longe ficavam na lembrança do Rei deposto os amores de Queluz e de Braga, as sortes de toureio na sua maior agilidade, as manhas sábias do velho Calabaça, as cantigas do Sedovem...

Naquele calor de incêndio, com os trigos a cair à foice, chovia cinza na alma do Rei. Aos trinta e dois anos, já lhe sobrava a experiência da vida: vitórias, derrotas, traições, ingratidões, lutas, covardias - tudo por Ele passara, de tudo, pouco ou muito, havia sofrido. 

Na marcha de funeral da Sua glória e da sua esperança, iria pensando no conceito genérico que tantas vezes havia de repetir, como resumo crítico do seu momento histórico: «Fomos ambos felizes, eu e meu Irmão. Por ele, esteve a inteligência sem honra; por mim, a gente de honra sem inteligência».
                                     
Ao passar em Ferreira este cortejo triste, já a má vontade do povo se traduzia no entusiasmo pelo sol nascente da política...

Na tarde de 31D. Miguel, a sua comitiva e a escolta, chegaram pela força do calor, à vila de Alvalade, onde o povo com bondade e carinho recebeu os vencidos, já fatigados por vinte léguas de jornada.

D. Miguel foi hospedado em casa do lavrador Luís da Lança Parreira e de sua mulher Dona Teresa Luísa, família principal da terra, que agasalharam com o que tinham e com os melhores sentimentos de respeito o seu Real Hóspede.

D. Miguel ali ceou, dormiu e almoçou no dia seguinte, 1 de Junho. Ao despedir-se com lágrimas de comoção daquela boa família portuguesa, que lhe beijava a mão na hora do infortúnio, o Rei deposto fixava numa nota escrita os nomes dos hospedeiros leais e corajosos, capazes de render homenagens a uma sombra que se afastava para sempre... Por esquecimento, ali ficou uma faca de prata que os descendentes daqueles lavradores foram guardando e uma espada que o guerrilheiro Remexido lá mandou buscar depois, por quatro homens da sua hoste.
           

Mais algumas léguas de caminho e avistariam o mar, outra planície a que não se adivinhava o fim... Às cinco horas, D. Miguel entrava em Sines, sentindo de todos os lados a curiosidade azeda do povo. Turvava-se a alma desse rapaz prisioneiro que estava na flor da vida e fora Rei absoluto de Portugal.

Descansou em casa do Padre Galufo durante uma hora. Em terra, já o esperava com os seus oficiais Nicolau Lockyer, comandante da fragata inglesa Stag, fundeada no porto desde a véspera, ida de Lisboa com a corveta Nimrod.

Esta fragata Stag que ali esperava D. Miguel, era a mesma para onde D. Pedro quisera embarcar num momento de exaltação, durante o conselho de 7-8 de Agosto de 1832, após o "Combate de Souto Redondo" e do "Recontro do Bandeira", que ele esteve observando de uma janela do Palácio dos Carrancas.

A fragata estava à foz do Douro, para ser utilizada em extremo recurso... Ia agora cumprir o seu destino.

A multidão dos moradores da vila e arredores, juntos aos manifestantes idos de Lisboa, comprimiam-se ao longo da rua que levava ao porto.

O povo foi-se exaltando a tal extremo que se tornou necessário estabelecer um serviço de defesa das embocaduras, formando-se alas com os esquadrões apeados e de espadas nuas.

O comandante da Stag convidou o Rei a embarcar sem demora, persuadido de que a pessoa de D. Miguel corria risco em terra. Como na descida para a praia não se podia ir a cavalo, D. Miguel e o seu séquito foram descendo a riba, desde a matriz até ao escaler, entre os oficiais ingleses e os portugueses, aos gritos de assuada, insultos, vivas à Carta, à Rainha e morras ao tirano.

Durante este percurso, uma pedra ou bloco de caliça, arremessado de um telhado, veio atingir um pé do Capitão D. Carlos, sem o molestar.

Averiguou-se mais tarde que esse projéctil se destinava ao General Lemos, por última vingança do seu antigo Sargento, Francisco Maria Raposo, castigado em Lamego, injustamente, dizia ele, por ter deixado escapar um preso. Este facto gerou a lenda de que D. Miguel fora apedrejado em Sines, glória triste que a laboriosa vila por certo indignadamente repudiará.

Após o embarque do Rei e da Sua comitiva, em que iam o Conde de Soure, Seu ajudante, D. Bernardo de Almada, Ajudante-de-Campo, o Mordomo António José GuiãoJoão Gaudêncio Torres, o General Lemos, o padre Joaquim dos Reis, confessor, Diogo José de Noronha, os seus criados fiéis, ao todo umas sessenta pessoas, a fragata e a corveta inglesa saudaram com os tiros da ordenança, a que não correspondeu a corveta portuguesa, do comando do Capitão Limpo, cuja marujada viera para terra a colaborar na assuada (confusão) dos garotos e vadios. Este foi por certo um grande serviço prestado à situação triunfante por aquele audaz marinheiro.

Os oficiais assinaram todos o auto de entrega, passara o comandante inglês o seu recibo: « - D. Miguel embarcou...», certificava o documento.
       

A fragata levantou ferro na manhã seguinte, para vir fundear em Cascais, a meter víveres; mas desse pequeno percurso ficou e veio até nós o eco de um protesto que, começando a correr no termo de uma Guerra Civil, se prolongou pelas distâncias e mudanças de um século inteiro, sem razão que reduzi-lo possa a definitivo silêncio.
             

Évora-Monte não simboliza apenas o ocaso da estrela política de um Príncipe que foi amado e Aclamado por defender com os Seus direitos uma aspiração histórica, jurídica e moral. Príncipes desgraçados, outros tem havido em Portugal, sacrificados ou mortos em perfeita inocência e a justiça humana não dá mostras de melhoria, nem a injustiça revela sinais de decadência em todo o orbe.


A capitulação de há um século foi o epitáfio de uma esperança, a da reconciliação do passado com as exigências constantes da renovação; valeu a morte duma reacção consciente, de uma aspiração de renascimento que, vinda das escolas e academias, encontraria a oportunidade de se traduzir em úteis reformas económicas, sociais e políticas.

Requer-se à inteligência que tenha dignidade, o dever de descobrir nas reacções de 23 e de 28, algum pensamento construtivo, que através de todas as indecisões, era nacional e verdadeiro; é preciso reconhecer outras realidades vivas, além dos espantalhos das forcas e das sombras dos cacetes, como apregoam em seus balcões, certos rendeiros da História de Portugal, em signo de Maçonaria. 

Se concedemos que Évora-Monte foi um fim, é só para marcar com essa data o começo de uma época de sistemática falsificação em que Portugal mudou de face, e de natureza, distanciando-se em odioso divórcio governantes e governados, pela interposição de clientelas fortemente organizadas em batalha legal.

Em Évora-Monte acabaram também, em holocausto à Liberdade, as ordens religiosas, apressadamente extintas em decreto de 28 - dois dias depois! - logo promulgado por D. Pedro em 30 de Maio, e cujo relatório abre assim:

«Senhor: - Está hoje extinto o prejuízo, que durou séculos, de que a existência das Ordens Regulares é indispensável à Religião Católica, e útil ao Estado, e a opinião dominante é que a Religião nada lucra com elas, e que a sua conservação não é compatível com a civilização e luzes do século, e com a organização política que convém aos Povos».

Por tal diploma se renegava entusiasticamente toda a acção das ordens religiosas e militares na constituição e defesa da Pátria, e a maior glória do passado civilizador de Portugal nas quatro partes do mundo!
                                       

Percebe-se bem a ligação estreita destes dois instantes da nossa história, tão íntima ligação os prende que eles se fundem no mesmo ruinoso e diabólico desígnio: chega a parecer que a Guerra Civil durara aqueles anos todos, só para que não houvesse frades nem freiras em Portugal. 

Dispersaram-se os melhores núcleos de ensino, as portas da mais ampla caridade cerraram-se de todo. Fecharam-se Alcobaça, Santa Cruz, Tibães, perseguiram-se velhos, desbarataram-se livrarias seculares, calaram-se os órgãos conventuais, esmoreceu e quase se extinguiu em Portugal, durante um século, o amor sereno e desinteressado do estudo das letras.

Demoliram-se, incendiaram-se ou saquearam-se conventos e mosteiros, para roubar e vender pratas e alfaias; transmudou-se a nossa fisionomia espiritual, barbarizou-se o conceito moral da vida portuguesa.

Haverá ainda quem encontre deleite a contemplar o campo de ruínas que durante o século hoje findo, alastrou de lés a lés de Portugal: toda a comparsaria dos que rastejam, como osgas, pelas alfurjas da Maçonaria e pelas mesas das redacções. Mas o tempo futuro, vingador das violências do passado e das hesitações covardes da hora presente, dará serenidade à crítica histórica para reconhecer e louvar a justiça daqueles Portugueses vencidos. Por supremo sacrifício, com dor da inteligência e do coração, eles capitularam em Évora-Monte, sem poderem evitar com tantos trabalhos e com o preço do seu sangue, que os destinos da Nação ficassem entregues ao domínio espiritual e material do estrangeiro.
       






Hipólito Raposo In "A Voz", a 26 de Maio de 1934.

terça-feira, 15 de março de 2016

O início da decadência.

"A desgraça de Portugal começou a 25 de Abril de 1974..."; tenho ouvido dizer a muitos dos meus compatriotas.

Infelizmente, o início da queda de Portugal é anterior a essa data, já vem desde 1820, com a Revolução Liberal do Porto, orquestrada pela maçonaria, que por serem apenas um punhado deles, não conseguiram impedir que se reunissem Côrtes Gerais (as verdadeiras Côrtes Gerais, compostas por Clero, Nobreza e Povo) em 1828 e Aclamássemos um Rei legítimo, que viria a ser o Senhor Dom Miguel I de Portugal (o nosso último Rei legítimo).
Malogrados os esforços do povo português, em 1834, foi implementado de vez o liberalismo estrangeiro e maçónico, pela força das armas estrangeiras e maçónicas também elas, sob a designação de Quadrupla-Aliança. O povo perdeu o poder de decidir sobre os seus destinos e a despótica maçonaria, centralizou e tomou de vez o poder absoluto em Portugal, implementando a democracia.

Depois de acabarem aí com o Portugal Português e com os últimos vestígios da Monarquia (que já o era apenas em nome) em 1910, continuou o roubo, destruição e assassinato que fez com que os militares de então levassem a cabo um Golpe de Estado (28 de Maio de 1926) e sob a Presidência de Mendes Cabeçadas fosse instaurada uma Ditadura Militar (1926-1928) para por cobro à desgraça que assolava a Nação. Seguiu-se-lhe a Ditadura Nacional (1928-1933) que também não funcionou, pois era o mesmo sistema Parlamentar, com os mesmos Partidos Políticos e Ministros, apenas sem eleições e finalmente, só com a formação do Estado Novo Corporativista (1933-1974), tivemos novamente uma aproximação ao Portugal do "Deus, Pátria e Rei", com a trilogia de "Deus, Pátria e Família".
Estávamos finalmente no caminho certo para Restaurar Portugal. Até que, infelizmente, se deu o 25 da má memória (1974), que veio a descambar "nisto", nesta chamada “democracia”, que não é mais do que uma maneira do nos manter escravizados, com a ilusão de que detemos o poder de mudar alguma coisa nos destinos da nação através do voto exercido no Sufrágio Universal!? Como já alguém disse, "nunca vi uma revolução, que colocasse no poder alguém melhor do que aqueles que lá estavam antes".

Em suma, desde 1834 para cá, só se aproveitou o período do Estado Novo. Tudo o resto, foi sempre a roubar, destruir, matar e sobretudo, a APAGAR a identidade portuguesa que estava enraizada em todos nós e era passada de geração em geração.
Foi tudo isso, essa maneira de ser Português que existiu desde a Fundação da Nacionalidade, aumentou com as Descobertas Marítimas Portuguesas e valeu-nos durante as Invasões Napoleónicas; tudo isso, foi-nos roubado pelo Liberalismo Maçónico-Partidário de 1834, tivemos de suportar o roubo e a destruição durante os 92 anos que durou a segunda democracia e apenas o Dr. Salazar, nos conseguiu devolver um pouco desse Orgulho Português e DE SER Português com o Estado Novo.

Mais uma vez, com a Revolução de Abril de 1974, tudo isso tem vindo a ser apagado novamente. Ao ponto de, numa sondagem efectuada há pouco tempo, apenas 28% dos nossos jovens se disporem a defender a pátria-mãe em armas, caso alguém nos declarasse guerra. 

VIVA PORTUGAL!!!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O Tratado Luso-Brasileiro ou Tratado do Rio de Janeiro de 1825

Tratado do Rio de Janeiro ou Tratado Luso-Brasileiro
Foi assinado em 29 de Agosto de 1825 e firmado entre o Brasil e Portugal com a mediação do Reino Unido. Através dele, o Reino de Portugal reconheceu a independência do Brasil. 
Num dos artigos referia que o Imperador do Brasil, deixaria de usar o título de Príncipe Real de Portugal, o que faria com que os Imperadores do Brasil, jamais pudessem ser Herdeiros do Trono de Portugal. O mesmo Imperador do Brasil, Pedro I renunciou aos seus direitos, sobre o trono de Portugal, para si e todos os seus descendentes, assumindo a nacionalidade Brasileira e declarando nada querer de Portugal.

A terceira cláusula do Tratado determinava que nenhuma outra colónia poderia se unir ao Brasil. Na época, havia muitos brasileiros comerciantes de escravos vivendo na costa africana com interesse de se livrar dos encargos portugueses. Muitos panfletos brasileiros circularam em Angola convidando Benguela a aderir à "Causa Brasileira".
A quarta cláusula do Tratado, determinava que o Brasil teria de pagar 80 toneladas de ouro a Portugal como compensação pela perda daquele território ultramarino e para que este não lhe declarasse Guerra.

Informalmente, o Reino Unido já reconhecia a independência do Brasil antes deste tratado, mas queria conseguir da nova nação a extinção imediata do tráfico de escravos. Isso acabou retardando a elaboração e assinatura do Tratado do Rio de Janeiro.

Transcrição do Tratado:

TRATADO DE AMIZADE ALIANÇA ENTRE EL-REI SENHOR DJOÃO VI
E D. PEDRO IIMPERADOR DO BRASILFEITO POR MEDIAÇÃO DE
SUA MAJESTADE BRITÂNICAASSINADO NO RIO DE JANEIRO A
29 DE AGOSTO DE 1825, RATIFICADO POR PARTE DE
PORTUGAL EM 15 DE NOVEMBRO PELA DO BRASIL
EM 30 DE AGOSTO DO DITO ANO.

Em nome da Santíssima e Indivisível Trindade. 
Sua Majestade Fidelíssima, tendo constantemente no seu real ânimo os mais vivos desejos de restabelecer a paz, amizade e boa harmonia entre povos irmãos, que os vínculos mais sagrados devem conciliar e unir em perpétua aliança; para conseguir tão importantes fins, promover a prosperidade geral e segurar a existência política e os destinos futuros de Portugal, assim como os do Brasil, e querendo de uma vez remover todos os obstáculos que possam impedir a dita aliança, concórdia e felicidade de um e outro Estado, por seu diploma de 13 de Maio do corrente ano reconheceu o Brasil na categoria de Império independente e separado dos Reinos de Portugal e Algarves, e a seu sobre todos muito amado e prezado filho D. Pedro por Imperador, cedendo e transferindo de sua livre vontade a soberania do dito Império ao mesmo seu filho, e seus legítimos sucessores, e tomando somente e reservando para a sua pessoa o mesmo título.
E estes augustos Senhores, aceitando a mediação de Sua Majestade Britânica para o ajuste de toda a questão incidente à separação dos dois Estados, têm nomeado Plenipotenciários, a saber: Sua Majestade Fidelíssima, ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Cavalheiro Sir Charles Stuart, Conselheiro Privado de Sua Majestade Britânica, Grã-Cruz da Torre e Espada e da Ordem do Banho.
Sua Majestade Imperial, ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Luiz José de Carvalho e Mello, do seu Conselho de Estado, Dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro, Comendador das Ordens de Cristo e da Conceição, e Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros; ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Barão de Santo Amaro, Grande do Império, do Conselho de Estado, Gentil-homem da Imperial Câmara, Dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro, e Comendador das Ordens de Cristo e da Torre e Espada; e ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Francisco Villela Barbosa, do Conselho de Estado, Grã-Cruz da Imperial Ordem do Cruzeiro, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Coronel do Imperial Corpo de Engenharia, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha, e Inspector-Geral da Marinha. E vistos e trocados os seus plenos poderes, convieram em que, na conformidade dos princípios expressados neste preâmbulo, se formasse o presente tratado.
ART. I – Sua Majestade Fidelíssima reconhece o Brasil na categoria de Império independente e separado dos Reinos de Portugal e Algarves; e a seu sobre todos muito amado e prezado filho D. Pedro por Imperador, cedendo e transferindo de sua livre vontade a soberania do dito Império ao mesmo seu filho e a seus legítimos sucessores. Sua Majestade Fidelíssima toma somente e reserva para a sua pessoa o mesmo título. 
ART. II – Sua Majestade Imperial, em reconhecimento de respeito e amor a seu augusto pai o Senhor D. João VI, anuiu a que sua Majestade Fidelíssima tome para a sua pessoa o título de Imperador. E renuncia perpétuamente, ao uso do título de Príncipe Real de Portugal para si e os seus legítimos sucessores, assim como a quaisquer direitos à coroa dos Reinos de Portugal e Algarves.
ART. III – Sua Majestade Imperial promete não aceitar proposição de quaisquer Colónias Portuguesas para se reunirem ao Império do Brasil.
ART. IV – Haverá de agora em diante paz e aliança e a mais perfeita amizade entre os Reinos de Portugal e Algarves e o Império do Brasil com total esquecimento das desavenças passadas entre os povos respectivos. Sua Majestade Imperial compromete-se a pagar a quantia de 2 milhões de libras esterlinas, ou (80 toneladas de ouro), a título compensatório, ao Reino de Portugal e Algarves.
ART. V – Os súbditos de ambas as Nações Portuguesa e Brasileira serão considerados e tratados nos respectivos Estados como os da nação mais favorecida e amiga, e seus direitos e propriedades religiosamente guardados e protegidos; ficando entendido que os actuais possuidores de bens de raiz serão mantidos na posse pacífica dos mesmos bens.
ART. VI  Toda a propriedade de bens de raiz ou móveis e acções, sequestradas ou confiscadas, pertencentes aos súbditos de ambos os Soberanos de Portugal e do Brasil, serão logo restituídas, assim como os seus rendimentos passados, deduzidas as despesas da administração, os seus proprietários indemnizados reciprocamente pela maneira declarada no Artigo VIII.
ART. VII – Todas as embarcações e cargas apresadas, pertencentes aos súbditos de ambos os Soberanos, serão semelhantemente restituídas ou seus proprietários indemnizados.
ART. VIII – Uma comissão nomeada por ambos os Governos, composta de portugueses e brasileiros em número igual, e estabelecida onde os respectivos Governos julgarem por mais conveniente, será encarregada de examinar a matéria dos Artigos VI e VII; entendendo-se que as reclamações deverão ser feitas dentro do prazo de um ano, depois de formada a Comissão, e que, no caso de empate nos votos, será decidida a questão pelo Representante do Soberano Mediador. Ambos os Governos indicarão os fundos por onde se hão-de pagar as primeiras reclamações liquidadas.
ART. IX – Todas as reclamações públicas de Governo a Governo serão reciprocamente recebidas e decididas, ou com a restituição dos objectos reclamados, ou com uma indemnização do seu justo valor. Para o ajuste destas reclamações ambas as Altas Partes Contratantes convieram em fazer uma Convenção directa e especial.
ART. X – Serão restabelecidas desde logo as relações de comércio entre ambas as Nações Portuguesa e Brasileira, pagando reciprocamente todas as mercadorias 15 por cento de direitos de consumo provisoriamente; ficando os direitos de baldeação e reexporttação da mesma forma que se praticava antes da separação.
ART. XI – A recíproca troca das ratificações do presente Tratado se fará na cidade de Lisboa dentro do espaço de cinco meses ou mais breve se for possível, contados do dia da assinatura do presente Tratado. Em testemunho do que, nós, abaixo assinados, Plenipotenciários de Sua Majestade Fidelíssima e de Sua Majestade Imperial, em virtude dos nossos respectivos plenos poderes, assinámos o presente Tratado com os nossos punhos, e lhe fizemos pôr o selo das nossas armas. Feito na cidade do Rio de Janeiro, aos 29 dias do mês de Agosto de 1825.
                                                    
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(L. S.) CHARLES STUART
                           
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(L. S.) LUIZ JOSÉ DE CARVALHO E MELLO

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(L. S.) BARÃO DE SANTO AMARO

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(L. S.) FRANCISCO VILLELA BARBOSA

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Aos Monárquicos Portugueses!

A nossa Pátria atingiu um estado deplorável, a nossa Religião milenar e a nossa independência estão em perigo pela quase consumada traição daqueles que nos governam desde 1834, data da assinatura da Convenção de Évora-monte.
O coração dos patriotas está coberto de luto e os mais fracos dos nossos compatriotas submetidos pelo medo. Chegou o momento de fazermos todos os esforços, para que não se dê por perdida toda a luta desenvolvida ao longo dos tempos, pela manutenção da antiga ordem das coisas. A não ser assim, a Pátria irá desaparecer.

O sangue vertido pelos nossos heróis nas lutas pela formação desta nobre Nação, não pode ser esquecido, ou tratado pelos nossos inimigos com o mais escandaloso menosprezo. Fugimos da escravidão e comprámos a nossa liberdade com o nosso próprio sangue, não permitiremos que os nossos governantes sejam instrumento activo da mais maquiavélica conspiração havida ao longo dos séculos.

É justo que se abuse até ao limite da nossa lealdade? Devemos calar-nos perante os insultos? Como podemos aguentar isto por mais tempo? Como exigir-nos moderação, mansidão e esperança perante esta atitude dos discípulos de Voltaire e Rosseau?

Se fomentaram planos contra o nosso sossego, se conduziram a Nação e a Religião para um vulcão de carácter revolucionário que esperamos para destruí-los? 

Espanta-mo-nos ao ver a audácia desta peste de inovadores que, sob a capa de liberais, não temeram, nem temem provocar descaradamente a nossa indignação. Porque conhecendo como conhecemos o carácter e firmeza nacional, sentimos que se aproxima o momento de acabarmos com a mais amarga prova que alguma vez se exigiu do nosso sofrimento.

Esta é a hora – Portugueses – de voltarmos a impor a cadeia secular que acabou com o nosso heroísmo para depois despojar a Nação do seu Império.


Guilherme Koehler in “A BANDEIRA BRANCA”.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Estado Tradicional – Estado Moderno.


O Estado Tradicional, orgânico e não totalitário, coordena e faz participar na unidade superior todas as forças a que reconhece liberdade. É forte, não precisa de recorrer à centralização mecânica, a não ser quando há necessidade de controlar as massas e as suas vontades, embora a desordem só possa ser contida provisoriamente e não eliminada de todo.

A função primeira do autêntico Estado é fomentar um clima geral não materialista, como fizeram todos os regimes da época anterior. É a condição necessária para que um sistema, onde a liberdade é o factor fundamental, tome forma de modo praticamente espontâneo e funcione de maneira justa, com um mínimo de intervenções rectificadoras.

O Estado deve fazer com que a Nação se desenvolva de acordo com todas as suas virtualidades. No entanto uma Nação não é um corpo isolado. Hoje em dia, cada Nação está aberta a inúmeras influências exteriores e torna-se fácil trocar a sua alma pela tendência mais forte num determinado momento.


Contrariamente, o Estado moderno, inorgânico e totalitário, é centralizador e domina todas as realidades da sociedade através do sistema educativo obrigatório e de massas, dos meios de comunicação masivos que formatam a opinião pública, das suas leis impositivas, do seu sistema financeiro capitalista que nos reduz a simples assalariados.

Todo este processo tem como objectivo pôr fim às liberdades, destruir a verdadeira comunidade humana e a ordem natural.

Guilherme Koehler in "A Bandeira Branca" em 19/01/2016.

Carácter e Coerência.

Carácter e Coerência (no caso do liberalismo, a falta de ambas qualidades).

"Partidariamente, a primeira questão política da legislatura (1856) foi a formal recusa dos deputados legitimistas eleitos (cinco) em prestarem o juramento regimental de fidelidade às instituições liberais. 
Na ocasião, Históricos, Regeneradores e Cartistas deram as mãos na recusa de qualquer cedência. Para o campo liberal, o juramento era a garantia da formal cooptação dos legitimistas que entrassem em São Bento; para estes, contudo, tratava-se de um pró-forma já retrógrado. 
O impasse não foi passível de solução. No final de Janeiro, a constituição final da câmara foi ratificada e os cinco legitimistas expulsos do parlamento (...)."

Sardica, José Miguel - A Política e os Partidos entre 1851 e 1861, Análise Social vol. xxxii (141), 1997 (2.°), 279-333


*Na imagem: O Deputado Legitimista José de Magalhães e Menezes de Villas-Boas, Coronel do Exército Miguelista e 1.º Conde de Alvelos.

Publicado por Luís Andrade dos Santos in "A Bandeira Branca" em 19/01/2016.